25 de Abril

O 25 de Abril é um verdadeiro turbilhão de emoções na minha família.

Nasci em Angola. A minha mãe nasceu em Angola. O meu avô nasceu em Angola.

A minha família materna respira África. Desde a comida, passando pela música, às expressões tudo tem o calor e o ritmo que só esta terra quente dá às coisas e às pessoas.

Existe outra coisa constante: a saudade, essa saudade que fica dentro de quem sabe que o que foi não volta a ser.

O 25 de Abril levou a minha família a deixar a sua terra. Mulheres (com a minha mãe são 6 irmãs) no início da sua vida adulta que deixaram família, amigos, casa, trabalhos e rumaram a uma terra que tinham visto algumas vezes em férias de Verão.

Não são ‘retornadas’. São emigrantes. Deixaram Angola. Abdicaram da sua nacionalidade. Iniciaram vida noutro país. Chegaram no meio do PREC e espantaram-se com a ‘liberdade’. Essa ‘liberdade’ que ouviam na rádio falarem tanto mas que na verdade estava tão longe de ser real.

Elas que tiveram o privilégio de serem educadas em Liberdade descobriram que no país que fez uma revolução para ser livre elas, como mulheres, não o eram.

Os meus avós promoveram a educação, o conhecimento e acima de tudo a igualdade. Estas mulheres, que apesar de terem nascido durante o antigo regime, tiveram a sorte de estar num país suficientemente longe e terem uns pais com inteligência suficiente para contornar as questões mais flagrantes.

Estas mulheres eram livres quando chegaram. Estas mulheres usavam mini-saias, tinham os cabelos compridos e ouviam The Doors. Liam o que queriam e viam filmes sem censura. Tinham namorados negros, cubanos e brancos. Trabalhavam. Eram independentes.

Quando chegaram tiveram que cortar o cabelo, vestir saias até aos joelhos e ficar em casa. E num país livre, eram convidadas a não ter opinião.

A Liberdade não é uma coisa que simplesmente se dá. A Liberdade aprende-se e ensina-se. A Liberdade está em cada um de nós.

Durante muitos anos e ainda hoje (infelizmente) existem pessoas que não sabem o que é ser livre e respeitar a liberdade dos outros.

E tal como os meus avós, hoje, é a minha função e a do Zé, promover essa liberdade.

Ensinar o S. a ser livre e a respeitar o outro na sua liberdade.

Há exactamente 25 anos atrás nascia a minha irmã. Ela é, para mim, a metáfora mais bonita de Abril.

Uma mulher que nasceu a 25 de Abril, à 00h20 com a mão esquerda à frente. Está tudo dito não está?

Finalmente, depois de ter desejado tanto que ela não nascesse neste dia que tanta mágoa ainda lhe trazia, a minha mãe fez finalmente as pazes com Abril.

E, todos os anos, os Parabéns a Você misturam-se com o Grândola Vila Morena.

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