Um no céu, outro na barriga!

Sempre olhei para uma gravidez sem grandes intercorrências e posterior nascimento de um ser tão perfeito a vários níveis como um verdadeiro milagre.
Desejava um dia poder vivê-lo na primeira pessoa, e o ano de 2013 deu-me essa oportunidade.
Não consigo ter noção de como a minha experiência foi influenciada pelo facto de ser médica, mas talvez tenha vivido cada passo da gravidez de forma um pouco mais ansiosa, talvez por saber ao pormenor teórico tudo o que pode correr mal.
Quis o destino que eu fosse uma das bafejadas com intercorrências graves (tal como a minha bebé), e que ficasse sem ela 6 dias após nascer, com apenas 26 semanas e 441 g.
O vazio que fica, depois de tantas expectativas e formatações mentais de que a vida mudará tanto depois do primeiro rebento, é algo indescritível.
Preparámo-nos para o resto da vida com uma filha que não viria para casa connosco.
Tudo estava orientado para mudanças radicais, mas nada mudou excepto nós.
Confesso que nos primeiros dias perguntava a mim mesma quando me deixariam tentar engravidar de novo.
Mesmo com os riscos inerentes, com a forte possibilidade de tudo se repetir queria tenta.
Logo percebi que, provavelmente, o meu corpo demoraria a recuperar e talvez ainda assim recuperasse mais rápido do que a minha mente.
Mas depois do luto (que apenas se transformou em saudade), a ideia foi ganhando contornos mais definidos na minha cabeça, e o impulso já não era o de substituir o silêncio deixado por uma filha, com outro filho. Era a de preencher um lugarzinho novo que se tinha criado no meu coração, ao lado do cantinho que seria para sempre ocupado pela minha filha.
Era continuar a ser mãe (de uma forma mais convencional, se possível), porque já me via nesse papel mesmo que de uma forma que ninguém ensina.
Nesta segunda vez, a experiência de uma nova aventura da maternidade começou muito antes de ver um teste positivo de gravidez.
Havia uma possibilidade de não poder voltar a engravidar, pelo que a cada mês que passava sem o conseguir havia ali um dia em específico em que me ia abaixo.
A razão dizia-me que era normal, a emoção já era mais difícil de controlar.
Quando aconteceu, começou a montanha russa que ainda hoje, às 35 semanas de gravidez, vivo.
Iria o pequeno embrião aguentar-se?
Pela elevada taxa de abortos iniciais, guardei para mim.
O pai soube 3 dias depois, quando senti uma vontade incontrolável de começar a viver a felicidade.
Mas deveria vivê-la? Deveria “fingir” que não existia até ter certezas, de forma a proteger-me de mais dor caso algo corresse mal?
Decidi desde início que este meu segundo filho não merecia contenções pelo que já tinha passado, e que ia ter direito ao “pacote” de sentimentos completo.
Se algo corresse mal, assim continuaria, e teria um lugar tão especial no meu coração como a irmã.
Foi uma decisão importante, que me deixou começar um diário de gravidez, renovar planos, começar a comprar coisinhas para o seu enxoval, saber que iria conseguir montar um quarto novo. Não queria proteger-me de sentir, mas para além deste imenso amor por uma criaturinha tão pequena, o medo (o pânico!) estava sempre presente. Incontrolável, na maior parte das vezes. Mas disfarçável…
Durante estes quase 8 meses, não houve vez que fosse à casa de banho e não ficasse nervosa para ver se teria alguma hemorragia.
Não houve dor, por mais pequena que fosse, que não me trouxesse a angústia de não saber se estava tudo bem.
Não houve ecografia que não fosse antecedida por vários dias de ansiedade, a imaginar sempre mil e um cenários possíveis de coisas que pudessem estar mal. Não houve dia em que não medisse a tensão (por vezes 2 e 3 vezes, tendo-me rido quando a médica me recomendou no início do 3º trimestre “Agora, se conseguir, tente medir a tensão pelo menos 2 vezes por semana”).
Muitos dias em que achei que a barriga estava demasiado grande ou demasiado pequena, demasiado descaída ou pesada.
Muitos dias em que confundi cãimbras irradiadas na barriga com contracções prematuras, muitos pesadelos com bolsas rotas prematuramente, muito medo do meu corpo me voltar a “falhar”.
Não, não me sinto culpada de nada, mas não posso deixar de assumir o facto de que o meu corpo me falhou numa das coisas que lhe deviam ser mais naturais.
Pergunto-me, por vezes, como será viver uma gravidez tranquila, e ser abençoado com o nascimento de um amor maior, e ele chorar nos nossos braços.
Pergunto-me se, independentemente da sua experiência prévia, haverá alguma grávida realmente sem stress, sem medos.
Talvez não… Talvez a minha experiência não seja assim tão diferente da da maioria.
Sei que nunca terei uma gravidez sem pânico, mas se tiver direito ao prémio final, como espero, tudo será compensado…e espero brevemente dizer-vos por experiência própria (cheia de olheiras, despenteada, e com a roupa bolsada), que ser mãe de um bebé que quis ficar pela Terra é o melhor do mundo!
 Ana Matos

Ana Matos é mãe da Leonor e do Leonardo, médica e autora do blog Our Mad World

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