Lado lunar

Sou pai. Ou melhor, sou “bipai”. Ela com oito anos, ele com quatro. Assim sendo, falo do alto da minha (falta de) experiência: não sei o que raio é ser um bom pai. Nem sei o que engloba essa definição. E não tenho qualquer tipo de conselho que não seja: faz o que achas que deve ser feito. Posto isto, e porque a vida não é apenas cor-de-rosa (a não ser que sejas um unicórnio), aqui vai uma experiência de uma cor mais verdadeira. 

Viver com medo

 A partir do momento em que o exame te anuncia que aí vem prole, o medo chega também a galope. Na verdade, acho que foi o primeiro sentimento que tive quando descobri que seria pai. Medos grandes e medos pequenos. O medo que a gravidez não decorra como esperado (acontece mais vezes do que se pensa); o medo que o parto não corra pelo melhor; o medo de deixar cair o bebé; o medo que ele tropece e se esbardalhe do gigante escorrega do parque; o medo que alguém os leve; o medo que ela não encaixe na nova escola; o medo das saídas à noite; o medo que não encontrem a sua vocação; o medo que só tenham futuro além fronteira; o medo que não encontrem quem os ame; o medo, simplesmente.

Receio, temor, cagufa, inseguranças… É tudo medo, e não deve haver receio (lá está) de utilizar a palavra.

 

A incapacidade de perceber o conceito de “dormir”

 Os meus dois filhos têm/tiveram uma relação estranha com o “dormir”. Ela, até aos 17 meses, acordava todas as noites. Mais do que uma vez. Sim, todas as noites. Durante 17 meses. A quantidade de neurónios que queimei à conta da miúda é imensurável. A minha filha fez-me mais burro, portanto. Certa noite parei de contar à décima primeira vez em que despertou… Por isso, para mim e para a mãe, é perfeitamente normal acordar às 3 da manhã (e às 4, 5, etc.). Nunca pensei que isso aconteceria, mas de facto habituamo-nos a tudo.

Se com ela o dormir melhorou, com ele estamos ainda a lutar para estender o sono além das 6h45. É essa a hora de alvorada em casa, pelo menos para o pirralho e para um dos adultos. Já experimentámos fazer serões, cansá-lo, massagens, leite morno ao deitar… Não adianta. O puto tem um relógio interno que não falha e ainda antes das 7h está a postos.

Uma vez, na escola dela, pediram-me para escrever num coração o que era ser pai, e posteriormente colocar num mural. Junto dos “é a melhor coisa do mundo” ou “é maravilhoso”, estava “é não saber o que é dormir e, mesmo assim, gostar deles”.

 

O barulho é o novo silêncio

 Experimentem dizer a uma criança de quatro anos que faça silêncio para se conseguir ouvir as notícias. É o mesmo que pedir a um elefante para cantar ópera. Não dá. O barulho constante é, assim, o novo silêncio. Habituas-te, como em tudo. Se é fácil? Não, não é. E, por vezes, a falta de paciência leva-te a gritar (quem nunca o fez que ponha o dedo no ar). Ou seja, tentas combater a falta de silêncio fazendo ainda mais barulho… Tu, o adulto, a comportar-te como um puto. Sacanas, pá. O que eles nos fazem.

 

Brinquedos e casa arrumada

 Certa vez tive a casa arrumada. Depois tive filhos e não sei o que é isso. Antes deles virem não podia ver algo fora do sítio. Cedo percebi que, ou deixava isso para trás, ou não fazia mais nada que não fosse arrumar. E brinquedos espalhados? Em certas noites limito-me a empurrar com os pés os brinquedos para junto das paredes, por forma a não os pisar quando tiver de acordar pela terceira vez.

 

Rochedo de borracha

 Eles olham para nós como um rochedo, um porto seguro. Olham para cima, e julgo que o farão mesmo quando forem mais altos que nós. Somos o suporte, os que sabem, os que decidem. E eu faço-me de forte, de quem percebe, de quem toma as decisões corretas. Se eles soubessem que não percebo nada de nada, que sou o mais inseguro de todos. Sou um rochedo de borracha. Molinho, sem saber muito bem para onde ir, mas indo com convicção que eles precisam.

 

Autorização para sair à noite

 Não são eles que necessitam de autorização para sair à noite (por enquanto!). Somos nós que, para o fazer, temos de acertar agendas com os avós (que felizmente nos dão uma grande ajuda), para assim podermos sair, namorar, ir ao cinema, beber algo mais que não ice tea, e regressar a casa às tantas (ou bem cedo, para poder dormir a sério).

 Tudo isto traça uma visão negra da paternidade, não? A visão pode ser mais “escura”, mas também porque não falo aqui do bom (aqueles que são pais já o conhecem). Ter filhos não se classifica como o melhor que aconteceu. É algo à parte, para lá disso. E o melhor acontece todos os dias. Quem é pai e os vê sorrir sabe do que falo. É ser Verão cá dentro, durante o ano inteiro. Se pudesse tinha mais 14. Fico por dois, com a mulher que amo.

 

Há um lado lunar na paternidade, claro. Mas a lua é tão bonita que compensa tudo.

Ricardo Martins é jornalista. Pai de uma e de um. Marido de uma. Pessoa que brinca com músicas e tal. Autor do blog Mil por Dia

 

 

 

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