Eu sou a Sandra mas podia ser o Aylan.

A Bárbara escreveu este post sobre os refugiados da Síria. Na verdade, é um post não sobre os refugiados mas sobre a impotência. A impotência de uma mãe europeia, a impotência dos pais sírios, a impotência do ser humano em salvar outro ser humano.

Eu hoje quero falar sobre outra coisa. 

No início do ano de 1977, tinha eu nove meses de idade, viajei de Luanda para Lisboa. Sozinha. Com um pano a fazer de fralda, tudo seguro por um saco de plástico. Os meus pais puseram-me nos braços de uma hospedeira da TAP, suplicaram que me levasse dali, abraçaram-me e beijaram-me como se fosse a última vez. Ninguém sabia naquele dia, naquela hora, se nos voltaríamos a ver.

Fugíamos da guerra. Deixávamos tudo para trás. Temíamos pela nossa vida. Guerra é guerra.

Passaram-se meses até nos reencontrarmos. Passaram anos até uma total integração da minha família na sociedade. Se a dor que a guerra causou foi superada, isso vos posso garantir que não. Basta se sentarem 5 minutos com qual membro da minha família para rapidamente compreenderem que existem coisas que não se esquecem.

Eu tinha nove meses. Nem consigo imaginar o desespero e o medo que os meus pais sentiram para fazerem o que fizeram. Mas eles estavam dispostos a arriscarem tudo para me salvarem.

Eu tinha nove meses. Não me lembro da minha terra. Fui educada de um modo diferente do habitual em Portugal na altura, isso sei.

Sempre houve comentários. Na altura não entendia o seu significado. Quando tinha 16 anos iniciei a minha primeira relação ‘séria’. Namorávamos. Ele passava bastante tempo em minha casa. Fazia parte da minha família. 

Os pais dele nunca me conheceram. 

Quando perguntei o motivo, a resposta foi simples: O meu pai diz que os retornados vieram para Portugal para nos roubarem os empregos. 

E nesta frase, anos de comentários passaram a fazer sentido e eu percebia o que significava xenofobia.

Eu não nasci em Portugal mas esta é a minha casa. Podem-me chamar emigrante, refugiada, retornada mas o meu nome é Sandra.

Quase 39 anos depois, ainda existe muita gente em Portugal e no resto da Europa que não consegue reconhecer um ser humano, e isso, sim, me faz sentir impotente.

Eu sou a Sandra mas podia ser o Aylan.

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One thought on “Eu sou a Sandra mas podia ser o Aylan.

  1. Fiquei arrepiada ao ler. Ao imaginar, a dor. O desespero dos seus pais, naquele que foi um acto de amor. Desesperado, de amor. Do mais puro, amor de pais para filhos. Carregadas de tristeza são também palavras de alento, de esperança 🙂

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